sábado, 3 de novembro de 2007

Moda e Guerra na França

A Segunda Guerra foi a comprovação que os franceses e o resto do mundo precisavam para entender a importância da moda na sociedade francesa. Durante a ocupação alemã nos anos de 1940-1945, os franceses resistiram bravamente e criativamente às tentativas alemãs de dominação. Depois de terem o controle da política e da economia francesa, os alemães se lançaram em busca daquilo que os franceses tinham de mais precioso: a moda. Com o objetivo de transformar Berlim na capital mundial da moda, os alemães usaram de várias estratégias para atrapalhar o trabalho da alta costura francesa e controlar a moda na Europa. Estratégia estas que incluíam proibição de materiais específicos, como couro e lã, redução da metragem de tecido, que passou a ser um terço da habitual, e até mesmo um vale-vestuário, que permitia a troca por meias, blusas e calças.
Acima, costureiras remendam meias. Abaixo, posto de trocas de roupas velhas por pontos têxteis no vale vestuário.

Entregue aos inimigos, os franceses começaram a usar do improviso para se vestir. A utilização de retalhos foi uma das saídas encontradas pelas donas de casa para a escassez de tecidos, assim como roupas velhas e usadas tornaram-se novas com o talento das costureiras francesas. O jornalismo de moda teve grande importância no período, pois ajudava as donas de casa com dicas e conselhos. Revistas como Figaro, cujo editor se negou a ceder ao controle alemão, insistia em um guarda-roupa que durasse mais que uma estação, com peças que fossem intercambiáveis e confeccionadas com o mínimo de tecido possível. E por incrível que pareça, estes conselhos são muito aplicados nos dias de hoje, principalmente por aqueles que não tem condição econômica de estar mudando o guarda-roupa a cada estação. Com a restrição de tecidos e a pouca variedade de roupas, os acessórios ganham espaço e passam a ser destaque no visual. Os chapéus são febre em Paris, com modelos extravagantes e algumas vezes até de gosto duvidoso.
Chapéus extravagantes são a saída das francesas para valorizar o look.
No que diz respeito aos tecidos, devido ao armistício, que previa a entrega de lãs e produtos acabados à Alemanha, as fibras artificiais como o raiom e a fibrana ganham espaço e fazem grandes progressos. O plano Kehrl estimula o uso de matérias-primas como a madeira e a celulose na indústria têxtil, e a falta de seda faz com que o uso de seda sintética seja difundido, além do uso de tecidos fabricados a base de viscose e de acetato para substituir a lã pura. Os jornais da época questionaram o uso desses materiais, com enquetes a respeito do futuro do vestuário francês. “Nos vestiremos amanhã com bambus de Provence?”, perguntava o periódico Matin.
A ditadura alemã foi tamanha que chegou a estabelecer um código de normas a serem seguidos pelos estilistas da alta costura francesa. Neste código, itens como um modelo que contenha renda, um modelo inteiramente feito de renda, um modelo com o tule como tecido principal e 10% dos modelos com bordados, eram seguidos à risca pelos criadores franceses. Os peleteiros, única mão de obra capaz de fabricar casacos, luvas e roupas quentes para os soldados foram a chamada exceção da regra durante a ocupação alemã. Sendo todos judeus, um código também foi criado pelo ocupante, permitindo que os judeus peleteiros trabalhassem normalmente.
Com o fim do conflito, o fenômeno da moda não tem a mesma significação que em 1939. A moda se democratiza, e passa a ser não só um privilégio da classe mais alta da sociedade. O feito sob medida não é mais a sua única vertente. Surge uma moda feita para o cotidiano, mais prática e funcional. A alta costura começa a dar lugar ao prêt-à-porter, que anos depois superará o trabalho “feito à mão”. Mais do que uma vitória da indústria da moda, tem-se uma vitória da cultura francesa. A moda passa a ser um patrimônio cultural da sociedade francesa. Uma prova de que nada no mundo rouba ou se apropria do conhecimento e da tradição de um povo.

Vestuário típico francês durante a Segunda Guerra: sapato plataforma, bolsas práticas e motivos florais.

Me leva lá!!!: Quem quiser saber mais sobre o papel da moda na França durante a Segunda Guerra, uma boa dica é o livro Moda e Guerra - Um retrato da França ocupada, de Dominique Veillon. Disponível no site da Livraria Cultura.

Um comentário:

Catarina Afonso disse...

A minha stora de Área de Projecto disse para fazermos trabalhos sobre o vestuário francês e vocês ajudaram-me muito.
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(PS:. OBRIGADO!!!)